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Carta a uma jovem que pretende tornar-se vegana

Carta a uma jovem que pretende tornar-se vegana

A carta abaixo, que na verdade é um e-mail, faz parte da correspondência trocada com uma pessoa interessada em tornar-se vegana e é da época em que eu participei do projeto Anjo Vegano, que tinha justamente a finalidade de facilitar a transição, oferecendo orientação pessoal de alguém que já fosse vegano a algum tempo. Troquei o nome e algumas informações para preservar a privacidade da pessoa em questão.

Carta a uma jovem que pretende tornar-se vegana e está preocupada com a repercussão disso em seu convívio social e em dúvida sobre como se comportar num churrasco

Publicado originalmente no Medium

Oi Laura!

Existem dois modos de um vegano enfrentar um churrasco: não indo ou indo pra se divertir junto com os amigos. Aprender a lidar com as pessoas que seguem uma dieta convencional é importante se você quiser ter vida social ☺. Mesa não é lugar para brigas, é lugar de comunhão e partilha mas a cola da união não é o que é servido como alimento.

Claro que existem veganos que simplesmente evitam churrascos, acabam trocando de amigos, essas coisas, porque para alguns é doloroso ter que ver carne morta etc, também porque alguns podem se sentir superiores e tal. Esse é um caminho errado. Se limitar aos guetos veganos é uma opção válida mas você perde muita coisa: o debate construtivo, a diversidade de opiniões etc.

Depende de cada um escolher como vai lidar com tudo isso. Mas não se engane, é uma luta praticamente diária. Muitos veganos desistem logo no começo por conta disso, pela pressão social. Eu não os culpo por que sei como as pessoas podem ser capciosas, mesmo as que amamos, e isso pode doer. Porém nossos familiares e amigos podem nos surpreender para o bem.

Convivência é a única parte de ser vegano que pode ser difícil, muito difícil. E essa dificuldade é pro resto da vida. Você sempre vai ter que lidar com perguntas oportunas ou não, honestas ou não, piadas e gracinhas inocentes ou não. Meu conselho direto é: muito jogo de cintura com os amigos, chute no peito dos inimigos. Não inverta isso nunca!

Pra isso você precisará saber argumentar quando necessário e também levar com bom humor na maior parte do tempo. Isso só se consegue com experiência. Não tenha pressa, você vai passar por situações delicadas no começo. O importante é ser honesto e autêntico.

Como experiência própria, posso dizer que ser vegano é ser questionado e se questionar o tempo todo. Sempre me pego repensando meus hábitos e decisões e nem sempre me sinto seguro nas minhas opiniões. Mas uma coisa que não some é aquele estalo inicial, aquela piscada de consciência que me levou pra esse caminho. Continua lá, invicto diante de qualquer argumento pró carne. Também ainda me pego as vezes debatendo com meus amigos. Mas é preciso bastante cuidado ao discutir isso numa mesa de churrasco. Principalmente depois de beber um pouco a mais :D

Ok, mesmo depois do choque da notícia, depois da fase inicial (semanas, meses, anos…), os questionamentos sobre sua mudança de hábito continuarão. E as perguntas vem do nada e podem pegar você de surpresa. Não estou dizendo isso pra você ficar sempre de guarda erguida, mas sim para não se espantar. Vai ser engraçado, acredite.

Você é jovem, de certa forma esse é o momento de tomar decisões que vão repercutir pelo resto da sua vida e é mais ou menos o que se espera. O idealismo dos jovens ou algo assim. Posso estar falando uma grande besteira mas creio que será fácil para você se tornar vegana nesse ponto da sua vida. Eu me tornei vegano depois dos trinta. Acho que o atrito social acaba sendo maior quando você é mais velho.

Em geral as pessoas próximas têm necessidade genuína de entender seu comportamento e fazem perguntas sinceras na maior parte do tempo, apesar de confusas. Responda sempre com honestidade e não tenha medo de dizer “não sei”, “não pensei sobre isso”. Mas exponha que você está seguindo seu coração e acredita que está fazendo o que acha justo e o melhor pra você.

Perguntas maldosas não são difíceis de reconhecer. O melhor é rir e mudar de assunto. Se o interlocutor insistir você pode rebater com argumentos diretos e fatos. Por exemplo, o caso clássico do “voces veganos comem soja, as matas são devastadas pra plantar soja blablabla…” “80% da soja produzida vai alimentar gado de corte”. Ponto final, viu?

Claro que daí virá outra questão. Um vegano num churrasco é um grande ponto de interrogação que faz as pessoas pensarem, pelo menos aquelas que têm esse hábito.

Um site que recomendo para se aprofundar nas bases de argumentação ética pró vegana é o do Robson. Os textos dele são (…) bastante completos quando se procura uma fonte técnica em dialética. Leia esse guia e use outros do site para futura referência.

Mas tenha em mente que ganhar uma discussão não traz satisfação no caso de um vegano. Em se tratando de comer carne, as pessoas tem convicções irracíveis arraigadas profundamente em verdades seculares. Não há argumento que solte essas raízes, por mais lógico que seja. Você pode deixar um debatedor carnista desarmado mas ele será como um robô: dará uma travada, reiniciará tudo de novo e logo virá com algo como “mas picanha é muuuito booom…”. Só mesmo um insight pra tirar o sujeito desse loop.

Tentar levar o interlocutor a ver seu ponto de vista é o ideal, mas isso demanda disposição de ambos e bastante preparo da sua parte.

Mesmo veganos veteranos e macacos velhos às vezes desanimam. (…)

Bom, é isso. Alguma dúvida, recruta?

Mas vamos para a parte prática, que é o alienígena pousando de pára-quedas no churrasco:

Num churrasco onde você tem liberdade de usar a churrasqueira leve algo para preparar. Para você e para todos, isso é importante.

Esse link tem um excelente glossário bastante completo sobre tudo o que dá pra preparar numa churrasqueira: O churrasco nosso de cada fim de semana.

Aqui temos alguns exemplos de espetinhos com uma cara muito boa: Churrasco vegano.

Num churrasco onde você não tem acesso a churrasqueira a saída é passar apenas pra dizer um olá ou então comer algo em casa para forrar o estômago e/ou levar coisas para beliscar: azeitonas, amendoim japonês, nozes etc.

Uma passada no mercado antes de chegar na festa resolve a parte da comida. Dá trabalho extra, mas essa é sem dúvida a parte fácil de ser vegano.

Então você pode escolher entre ser o amigo/amiga esquisita mas boa praça que traz um rango diferente pra variar o churrasco da galera ou ser o amigo/amiga esquisito chato que chega pra fazer cara de nojo e apontar o dedo na cara dos carniceiros malvados.

Espero não ter te assustado! hehe