O que está acontecendo?

A comprida sacola que arrastamos atrás de nós

A comprida sacola que arrastamos atrás de nós

Por Robert Bly

Foto de uma sombra com forma humana presa por correntes
Imagem: https://www.flickr.com/photos/unukorno/

Diz uma antiga tradição gnóstica que não inventamos as coisas, apenas as relembramos. Dentre os europeus que conheço, aqueles que melhor relembram o lado escuro são Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e Carl Jung. Vou retomar algumas de suas ideias e acrescentar uns poucos pensamentos meus.

Falemos primeiro sobre a sombra pessoal. Com um ou dois anos de idade, temos uma "personalidade de 360 graus". A energia se irradia de todas as partes do nosso corpo e de todas as partes da nossa psique. Uma criança correndo é um globo vivo de energia. Quando crianças, somos uma bola de energia; mas um dia percebemos que nossos pais não apreciam certas partes dessa bola. Eles dizem; "Você não consegue ficar quieto?" ou "Não é bonito tentar matar seu irmãozinho". Atrás de nós temos uma sacola invisível e, para conservar o amor de nossos pais, nela colocamos a parte de nós que nossos pais não apreciam. Quando começamos a ir à escola, nossa sacola já é bastante grande. E aí nossos professores nos dizem: "O bom menino não fica bravo com coisinhas à-toa", e nós guardamos nossa raiva na sacola. Quando eu e meu irmão tínhamos doze anos em Madison, Minnesota, éramos conhecidos como “os bons meninos Bly”. Nossas sacolas já tinham um quilômetro de comprimento!

Depois fazemos o colegial e passamos por outro bom processo de guardar coisas na sacola. Agora quem nos pressiona não são os malvados adultos e, sim, o nosso próprio grupo etário. A paranoia dos jovens em relação aos adultos talvez esteja deslocada. Eu mentia automaticamente, durante todo o colegial, para me tornar mais parecido com os jogadores de basquete. Qualquer parte de mim que fosse mais "lenta" ia para a sacola. Meus filhos passam agora por esse processo, que eu já tinha observado nas minhas filhas, mais velhas que eles. Minha mulher e eu olhávamos, consternados, quantas coisas elas colocavam na sacola, mas não havia nada que pudéssemos fazer. Minhas filhas pareciam tomar suas decisões com base na moda e nos ideais coletivos de beleza, e sofriam tanta pressão das amiguinhas quanto dos rapazes.

Por isso sustento que o jovem de 20 anos conserva uma simples fatia daquele globo de energia. Imagine um homem que ficou com uma fina fatia — o restante do globo está na sacola — e que ele conhece uma mulher; digamos que ambos têm 24 anos de idade. Ela conservou uma fina e elegante fatia. Eles se unem numa cerimônia e essa união de duas fatias chama-se casamento. Mesmo unidos, os dois não formam uma pessoa! É exatamente por isso que o casamento, quando as sacolas são grandes, acarreta solidão durante a lua-de-mel. Claro que todos nós mentimos a esse respeito. "Como foi sua lua-de-mel?" "Fantástica, e a sua?”

Cada cultura enche a sacola com conteúdos diferentes. Na cultura cristã, a sexualidade geralmente vai para a sacola. E, com ela, muito da espontaneidade. Por outro lado, Marie-Louise von Franz nos alerta para não sentimentalizarmos as culturas primitivas assumindo que elas não tinham nenhuma sacola. Ela diz que, na verdade, essas culturas tinham sacolas diferentes das nossas e, às vezes, até maiores. Talvez colocassem nelas a individualidade ou a inventividade. Aquilo que os antropólogos conhecem como "participação mística" ou “a misteriosa mente comunal" pode parecer muito bonito, mas talvez signifique apenas que todos os membros da tribo conhecem exatamente a mesma coisa e nenhum deles conhece nada além disso. É possível que as sacolas de todos os seres humanos sejam mais ou menos do mesmo tamanho.

Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá. Algumas vezes parece impossível recuperá-las como se a sacola estivesse lacrada. Vamos supor que a sacola está lacrada — o que acontece?... Uma grande novela do século XIX ofereceu uma ideia a respeito. Certa noite, Robert Louis Stevenson acordou e contou para a mulher um trecho do sonho que acabara de ter. Ela o convenceu a escrevê-lo, ele o fez e o sonho tornou-se o "Dr. Jekyll e Mr. Hyde". O lado agradável da personalidade torna-se, na nossa cultura idealista, cada vez mais agradável, O homem ocidental talvez seja, por exemplo, um médico liberal que só pensa em fazer o bem. Em termos morais e éticos, ele é maravilhoso. Mas a substância na sua sacola assume personalidade própria; ela não pode ser ignorada. A história conta que a substância trancada na sacola aparece, certo dia, em uma outra parte da cidade. Ela está cheia de raiva e, quando finalmente é vista, tem a forma e os movimentos de um gorila.

O que essa história conta é que quando colocamos uma parte de nós na sacola, essa parte regride. Retrocede ao barbarismo. Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 e espera uns quinze ou vinte anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? É triste, mas toda a sexualidade, selvageria, impulsividade, raiva e liberdade que ele colocou na sacola regrediram; não apenas seu temperamento se tornou primitivo como elas agora são hostis à pessoa que abre a sacola. O homem ou a mulher que abrem a sacola aos 45 anos sentem medo. Eles dão uma olhada e vêem a sombra de um gorila se esgueirando contra a parede; ora, qualquer pessoa que veja uma coisa dessas fica aterrorizada!

Pode-se dizer que, na nossa cultura, a maioria dos homens coloca o seu lado feminino (a mulher interior) na sacola. Quando ele quer, lá pelos 35 ou 40 anos, entrar novamente em contato com o seu lado feminino, a mulher interior talvez lhe seja bastante hostil. Nesse meio tempo, ele está enfrentando a hostilidade das mulheres no mundo exterior. A regra parece ser: o lado de fora é um espelho do lado de dentro. É assim que as coisas são neste nosso mundo. E a mulher que queria ser aceita pela sua feminilidade e para isso guardou seu lado masculino (o homem interior) na sacola, talvez descubra, vinte anos mais tarde, que ele lhe é hostil. Talvez ele também seja insensível e brutal em suas críticas. Essa mulher estará em apuros. Viver com um homem hostil dará a ela alguém a quem censurar e aliviará a pressão, mas não resolverá o problema da sacola fechada. Nesse meio tempo, ela está propensa a uma dupla rejeição: a do homem interior e a do homem exterior. Existe muita dor nisso tudo.

Cada parte da nossa personalidade que não amamos tornar-se-á hostil a nós. Ela também pode distanciar-se de nós e iniciar uma revolta contra nós. Muitos dos problemas sofridos pelos reis de Shakespeare desenvolveram-se a partir daí. Hotspur, lá "no País de Gales", rebela-se contra o rei. A poesia de Shakespeare é maravilhosamente sensível ao perigo dessas revoltas interiores. O rei, no centro, sempre está em perigo.

Quando visitei Bali há alguns anos, percebi que essa antiga cultura hindu utiliza a mitologia para trazer à luz do dia os elementos da sombra. Os templos encenam, quase todos os dias, representações do Ramayana. Algumas peças aterrorizantes são encenadas como parte do cotidiano da vida religiosa. Diante da maioria das casas balinesas existe uma figura esculpida em pedra: hostil, feroz, agressiva e com grandes dentes aguçados. Sua intenção não é fazer o bem. Visitei um fabricante de máscaras e vi seu filho, de 9 ou 10 anos, sentado diante da casa a esculpir, com seu cinzel, uma figura hostil e raivosa. O objetivo desse povo não é dissipar as energias agressivas — tal como nós fazemos com o nosso futebol ou os espanhóis com as suas touradas. Seu ideal é fazer essas energias emergirem na arte. Os balineses talvez sejam violentos e brutais na guerra mas, na vida cotidiana, parecem ser bem menos violentos que nós. O que isso significa? As pessoas do Sul dos Estados Unidos colocam no jardim anõezinhos negros de ferro forjado, como ajuda; nós, no Norte, fazemos o mesmo com pacíficos veadinhos. Gostamos de rosas no papel de parede, Renoir sobre o sofá e John Denver no aparelho de som. Então a agressividade escapa da sacola e ataca a todos.

Abandonemos o contraste entre as culturas balinesa e americana e sigamos em frente. Quero falar sobre a ligação entre as energias da sombra e o projetor de cinema. Vamos supor que miniaturizamos algumas partes de nós mesmos, as enrolamos como um filme e colocamos dentro de uma lata, onde elas ficarão no escuro. Então uma noite — sempre à noite — as formas reaparecem, imensas, e não conseguimos desviar nossos olhos delas. Estamos dirigindo à noite, fora da cidade, e vemos um homem e uma mulher numa enorme tela de cinema ao ar livre; paramos o carro e observamos, Algumas formas que foram enroladas dentro da lata (duplamente invisíveis, por estarem só parcialmente "reveladas" e por terem sido mantidas na escuridão) existem, durante o dia, apenas como pálidas imagens numa fina tira de celuloide cinzento. Quando uma certa luz se acende por trás de nós, formas fantasmagóricas aparecem na parede à nossa frente. Elas acendem cigarros: ameaçam os outros com revólveres. Nossa psique, portanto, é uma máquina natural de projeção; podemos recuperar as imagens que guardamos enroladas na lata e projetá-las para os outros ou sobre os outros.

O marido pode rever sua raiva, enrolada na lata por vinte anos, no rosto da mulher. A mulher que sempre vê um herói no rosto do marido, certa noite, vê ali um tirano. A Nora de A Doll’s House [Casa de Bonecas] via essas duas imagens alternadamente. Um dia desses encontrei meus velhos diários e peguei, ao acaso, o de 1956. Naquele ano eu estava tentando escrever um poema sobre a natureza dos publicitários. Lembrei-me como a lenda de Midas era um fator importante para a minha inspiração. Tudo o que Midas tocava se transformava em ouro. No meu poema, eu dizia que todas as coisas vivas nas quais o publicitário tocava se transformavam em dinheiro e que era por isso que os publicitários tinham a alma tão faminta. Eu escrevi pensando nos publicitários que conhecia e me diverti atacando-os às escondidas. Mas, conforme fui relendo esses velhos escritos, senti um choque ao ver o filme que eu estava projetando. Entre a época em que escrevi tudo aquilo e o agora, eu tinha descoberto como comer sem ingerir alimento: a comida que os amigos me ofereciam se transformava em metal antes de chegar na minha boca. A imagem ficou clara? Ninguém pode comer nem beber metal. E por isso Midas era importante para mim. Mas o filme que mostrava o meu Midas interior estava enrolado na lata. Os publicitários, perversos e tolos, apareciam à noite sobre uma tela imensa e me fascinavam. Logo depois desse poema, escrevi um livro chamado Poems for the Ascension of J.P. Morgan [Poemas para a Ascensão de J. P. Morgan]; meus poemas sobre o mundo das finanças alternavam-se com anúncios discutíveis reproduzidos de jornais e revistas. A seu modo, é um livro vivo. Ninguém quis publicá-lo, mas tudo bem. De toda maneira, eram só projeções. Vou ler um poema que escrevi nessa época. Chama-se "Inquietação".

Estranha inquietação paira sobre a nação.
E a última contradança, o bramir das ondas do mar de Morgan,
A divisão do espólio. Uma lassidão
penetra os diamantes do corpo.
Na escola, uma explosão; uma criança semimorta;
quando a batalha finda, terras e mares arruinados,
duas formas emergem em nós, e se vão.

Mas o babuíno assobia nas praias da morte —
subindo, caindo, jogando cocos e calhaus,
bamboleia na árvore
cujos ramos contêm a vastidão do frio,
planetas em órbita e um sol negro,
o zumbido dos insetos e os vermes escravizados
na prisão da casca.
Carlos Magno, aportamos às tuas ilhas!

Voltamos às árvores cobertas de neve
e à profunda escuridão enterrada na neve, através
da qual viajaste toda a noite
com as mãos a congelar; agora cai a escuridão
na qual dormimos e despertamos — uma sombra onde
o ladrão estremece, o insano devora a neve,
negra laje sepulta no sonho o banqueiro
e o negociante cai de joelhos no calabouço do sono.

Há cinco anos, comecei a suspeitar desse poema. Por que dei destaque especial aos banqueiros e aos negociantes? Se tivesse que substituir "banqueiro", o que eu diria? “Um estrategista, alguém que planeja muito bem"... ora, eu planejo muito bem. E "negociante"? “Um homem impiedoso, de rosto duro"... olhei-me ao espelho. Reescrevi esse trecho do poema, que agora está assim:

...uma sombra onde
o ladrão estremece, o insano devora a neve,
negra laje sepulta no sonho o estrategista
e o impiedoso cai de joelhos no calabouço do sono.

Agora, quando vou a uma festa, sinto-me diferente do que costumava me sentir ao conhecer um homem de negócios. Pergunto a um homem, "O que você faz?" e ele responde, “Negocio com ações”. E ele tem ar de quem pede desculpas. Digo para mim mesmo, "Veja só: algo de mim que estava no fundo de mim está exatamente ao meu lado". Sinto até uma estranha vontade de abraçar o homem de negócios. Não todos eles, é claro!

Mas a projeção também é uma coisa maravilhosa. Marie-Louise von Franz observou num de seus escritos: "Por que assumimos que a projeção é sempre uma coisa ruim? 'Você está projetando' tornou-se uma acusação entre os junguianos. As vezes a projeção é útil, é a coisa certa." Sua observação é sábia. Eu sabia que estava me matando de inanição, mas esse conhecimento não conseguia sair diretamente da sacola para a minha mente consciente. Ele precisava antes passar pelo mundo. "Como são perversos os publicitários", eu dizia para mim mesmo. Marie-Louise von Franz nos faz lembrar que, se não projetarmos, nunca conseguiremos estabelecer uma conexão com o mundo. As mulheres reclamam que o homem pega seu lado feminino ideal e o projeta sobre elas. Mas se não fizesse isso, como poderia ele sair da casa da mãe ou do apartamento de solteiro? A questão não é tanto o fato de projetarmos, mas sim por quanto tempo mantemos a projeção sobre o outro. Projeção sem contato pessoal é perigoso. Milhares, milhões de homens americanos projetaram seu feminino interior sobre Marilyn Monroe. Se um milhão de homens deixou suas projeções sobre ela, o mais provável era que Marilyn morresse. Ela morreu. Projeção sem contato pessoal pode causar danos à pessoa que a recebe.

Seja dito também que Marilyn Monroe precisava dessas projeções como parte de sua ânsia de poder, e que sua perturbação certamente retrocedia a problemas na infância. Mas o processo de projetar e recolher a projeção — feito com tanta delicadeza, face a face, na cultura tribal —foge de controle quando entra em cena a comunicação de massa. Na economia da psique, a morte de Marilyn era inevitável c até mesmo certa. Nenhum ser humano pode receber tantas projeções — isto é, tanto conteúdo inconsciente — e sobreviver. Por isso é da maior importância que cada pessoa traga de volta suas próprias projeções.

Mas por que abrir mão ou colocar na sacola tanto de nós mesmos? Por que o fazemos ainda tão jovens? E se colocamos de lado tantas das nossas raivas, espontaneidades, fomes, entusiasmos, nossas porções rudes e feias, como podemos viver? O que nos mantêm vivos? Alice Miller analisou esse ponto no seu livro Prisioners of Childhood [Prisioneiros da Infância], publicado em brochura com o título The Drama of the Gifted Child [O Drama da Criança Bem Dotada]

O drama é este. Chegamos como bebês "trilhando nuvens de glória" e vindos das mais distantes amplidões do universo, trazendo conosco apetites bem preservados da nossa herança de mamíferos, espontaneidades maravilhosamente preservadas dos nossos 150 mil anos de vida nas árvores, raivas bem preservadas dos nossos 5 mil anos de vida tribal — em suma, irradiando nossos 360 graus — e oferecendo esse dom aos nossos pais. Eles não o queriam. Queriam uma linda menininha ou um lindo garotinho. Esse é o primeiro ato do drama. Não quer dizer que nossos pais fossem perversos; é que eles precisavam de nós para alguma coisa. Minha mãe, imigrante de segunda geração, precisava de meu irmão e de mim para dar um toque de classe à família. Fazemos o mesmo aos nossos filhos; é parte da vida neste planeta. Nossos pais rejeitaram aquilo que éramos antes de podermos falar e, assim, a dor da rejeição está provavelmente guardada em algum local pré-verbal dentro de nós.

Quando li o livro de Alice Miller, fiquei deprimido por três semanas. Com tantas coisas perdidas, o que podemos fazer? Podemos construir uma personalidade que seja mais aceitável aos nossos pais. Alice Miller concorda que traímos a nós mesmos mas diz, "Não se culpe por isso. Não há nada mais que você pudesse ter feito". Nos tempos antigos, é provável que as crianças que se opunham aos pais fossem condenadas à morte. Fizemos, enquanto crianças, a única coisa sensata diante das circunstâncias. A atitude adequada, diz Alice Miller, é o luto.

Falemos agora dos outros tipos de sacolas. Quando colocamos muita coisa na nossa sacola particular, o resultado é nos sobrar pouca energia. Quanto maior a sacola, menor a energia. Algumas pessoas têm, por natureza, mais energia que outras; mas todos nós temos mais energia do que nos é possível usar. Para onde ela foi? Se colocamos nossa sexualidade na sacola enquanto somos crianças, é lógico que perdemos bastante energia. Quando coloca o seu lado masculino na sacola ou o enrola como um filme e guarda na lata, uma mulher perde energia. Assim, podemos imaginar que a nossa sacola pessoal contém energia que agora não está à nossa disposição, Se um homem diz que não é criativo, quer dizer que ele guardou sua criatividade na sacola. O que ele quer dizer com "Eu não sou criativo"? Não seria "Deixe para o especialista"? Ora, é exatamente isso que ele está dizendo! O que ele quer é um poeta de aluguel, um mercenário caído dos céus. Ele deveria, isso sim, estar escrevendo os seus próprios poemas.

Já falamos da nossa sacola pessoal, mas parece que cada cidade ou comunidade também possui a sua sacola. Vivi muitos anos nos arredores de uma cidadezinha agrícola de Minnesota. Esperava-se que cada habitante daquela cidade tivesse os mesmos objetos na sacola; ora, qualquer aldeia grega teria objetos diferentes na sacola! É como se a cidade, por uma decisão psíquica coletiva, colocasse certas energias na sacola e tentasse impedir que alguém as tirasse de lá. Nesse assunto, as cidades interferem com nossos processos particulares e é por isso que é mais perigoso viver nas cidades do que junto à natureza. Por outro lado, certos ódios ferozes que sentimos numa cidade pequena às vezes nos ajudam a ver para onde foram as nossas projeções. A comunidade junguiana, como a cidade, tem a sua sacola; ela geralmente recomenda aos junguianos que mantenham a vulgaridade e o amor ao dinheiro na sacola. Mas a comunidade freudiana geralmente exige que os freudianos mantenham sua vida religiosa na sacola.

Existe também uma sacola nacional, e a nossa é bem comprida. A Rússia e a China têm defeitos dignos de nota; mas se um cidadão americano tiver curiosidade de saber o que existe na nossa sacola nacional neste instante, basta ouvir com atenção algum funcionário do Departamento de Estado criticando a Rússia. Como dizia Ronald Reagan, nós somos nobres; as outras nações têm impérios. As outras nações suportam lideranças estagnadas, tratam as minorias com brutalidade, fazem lavagem cerebral em seus jovens e rompem tratados. Um russo poderá descobrir a respeito da sacola russa lendo algum artigo do Pravda sobre os Estados Unidos. Estamos lidando com uma rede de sombras, um padrão de sombras projetado por ambos os lados e todos se encontrando em algum ponto no ar. Não estou dizendo nada de novo com esta metáfora, mas quero tornar bem clara a distinção entre a sombra pessoal, a sombra da cidade e a sombra nacional.

Usei três metáforas aqui: a sacola, a lata de filme e a projeção. Já que a lata (ou sacola) está fechada e suas imagens permanecem na escuridão, só podemos ver o seu conteúdo quando o lançamos — com a maior inocência, como costumamos dizer — lá fora no mundo. E então as aranhas se tornam más, as serpentes astuciosas e os bodes libidinosos; os homens tornam-se lineares, as mulheres passam a ser fracas, os russos deixam de ter princípios e todos os chineses se parecem. Apesar de tudo, é precisamente através desse "mar de lama" dispendioso, prejudicial, ruinoso e confuso que acabaremos por entrar em contato com a lama sob nossos pés.

(Extraído do livro "Ao encontro da sombra", coletânea de artigos organizada por Connie Zweig e Jeremiah Abrams, tradução de Merle Scoss, Editora Cultrix, São Paulo, 1991, pág. 30-36)