03/07/2025
Das coisas que me fazem pensar que estou enlouquecendo
Tive pneumonia três vezes nos últimos anos. Ainda estou vivo, obrigado. Depois da primeira vez, reduzi muito o cigarro. Comecei a fumar apenas uns três por dia, meio cigarro de cada vez. Já tinha deixado de usar vape por causa das suspeitas de que poderia estar fazendo mal e tinha voltado para o cigarro de homem. Estava feliz curtindo meu Marlborão vermelho. É, sou assim, uma besta quadrada.
Para quem pergunta se eu parei de fumar, eu digo apenas que estou dando um tempo. Já parei e voltei algumas vezes, então eu me conheço bem. Não quero mais me decepcionar a mim mesmo myself, por isso sou aberto às possibilidades. Hoje, beirando os 50, sou um cara mais pé no chão.
A vida é como um corredor cheio de portas em que podemos ir entrando e seguindo em outros corredores com portas também, mas o tempo passa, vamos ficando mais velhos e as portas vão ficando mais espaçadas e menos disponíveis. Menos corredores, menos portas. Em algum momento o corredor terminará e só restará uma porta.
No último ano entrei por uma porta que me levou por um caminho mais feliz e estou cuidando melhor da minha saúde. Como o universo não se importa e as consequências dos meus atos não vão deixar de bater à minha porta mesmo que eu tenha criado vergonha na cara, um dos meus médicos (agora tenho vários) me diagnosticou com enfisema pulmonar. Mas, segundo ele, é pequeno e eu vou ficar bem. Ele reiterou algumas vezes que ficarei bem e isso me deixou um pouco ressabiado.
De modo geral, minha postura é zen. O que Buda faria? Não sei, talvez não cortasse os doces e seguisse sentado e feliz com sua pancinha. Eu aceito a minha sina porque afinal fui eu que causei meus males. E mesmo o que não é culpa minha vou aceitar também, porque levar bordoadas de graça também é da vida. Aguentar algumas pancadas sem desviar pode ser uma boa estratégia dependendo do objetivo.
Bom, então aqui estou eu com minha condição. Agora eu uso uma bombinha que vai me acompanhar até que eu alcance a última porta. Me diga o que você pensa ao ver a foto da caixa desse medicamento de alto custo que, graças ao SUS, não terei que pagar (um extra) para usar:

Ah, a doce ironia.
Nesse meio tempo, comecei a fazer musculação e essa é a coisa mais chocante que poderia sair da minha boca, mas, você vê, estou numa nova fase. Onde já se viu pagar para fazer força? Pois estou pagando. Só assim para eu me mexer. Ter uma reserva de músculos pode fazer você sair da UTI mais rápido, dizem. Eu vou acreditar. Estou numas de acreditar.
Veja, tenho também um problema no manguito. Não sei, é alguma coisa no ombro direito. Meu ortopedista recomendou musculação. Na verdade, todos os meus médicos recomendaram que eu não seja sedentário e musculação agora é o que há.
Fato é que estou aqui escrevendo esse texto todo na verdade como preâmbulo para relatar um evento cósmico que presenciei. Eu estava no ginásio, fazendo minha ginástica, quando uma senhora chegou para entrar. Ao passar pela catraca ela simplesmente exclamou, como se não fosse nada: força!
Eu estava logo ali perto da entrada e vi algumas cabeças mudarem de direção. A mulher passou e foi lá para o fundo. Não foi uma exclamação incisiva, contundente, gritada e ríspida. Não foi uma ordem, pareceu um pouco com um apelo. Foi um pouco débil. Um r um pouco longo. Parecia uma voz longe no nevoeiro. Ela não ria e não parecia aflita. Não se dirigiu a ninguém, acredito eu, falou no ar, para quem quisesse ouvir, e seguiu seu caminho.
Naquele momento eu estava sentado, concentrado em abrir minhas pernas enquanto uma força contrária não queria que eu fizesse isso. Eu sorri e fechei os olhos e continuei. Era de manhã e somente no fim daquele dia a grandiosidade daquele momento caiu sobre mim. E então eu ri como não ria há muito tempo.
Claro que nesse planeta são poucas as pessoas que enxergariam o que enxerguei. Em todos que ouviram meu relato fantástico eu não encontrei nem sombra de compreensão do impacto daquele evento. Espero que essa minha carta chegue em olhos que consigam compartilhar esse assombro que eu tive.
É uma coisa inexplicável. Você não pode chegar numa academia de musculação é simplesmente dizer força! É quase um crime, sem dúvida pernicioso e até imoral. É a coisa mais idiota que se pode dizer num lugar onde as pessoas estão literalmente fazendo força. É ridículo, é como chegar no meio de uma batalha no Pacífico em 1945 e gritar guerra!, ou levantar na arquibancada de um jogo de futebol e gritar futebol!. É como gritar rockenroll! no meio de um show de rockenroll!
Por outro lado, é também um chamado a ação: força, homens, precisamos cruzar o Bojador esta noite! Não desista, você consegue! Mais uma vez e você poderá enfim descansar. Só mais uma série, força, vamos lá!
Vamos bradar força! pelos corredores da vida. É isso!, é isso! Vou sair agora, entrar no meu carro, parar em todas as academias da cidade, ir até a catraca e exclamar, sem grande ímpeto ou convicção, sem colocar muita força nos pulmões, mas com resignação e um pouco de fé: força!
