O que está acontecendo?

Infelizmente no momento não temos

Infelizmente no momento não temos

Há dez ou 12 anos, procurei um livro de Miguel de Unamuno num sebo de Madri. A livraria, escura e malcuidada, era um lugar gótico de salas desiguais, com estantes metálicas de cor azul, paredes de tonalidade marfim e janelas altas. Lembro-me, ou, melhor dizendo, não esqueço como o dono do lugar impunha um silêncio opressivo, quase humilhante. Era um entardecer quente, e com grande dificuldade podia ler as lombadas com os nomes quase ilegíveis de cada autor. (Trecho do livro História universal da destruição dos livros, de Fernando Báez, tradução de Léo Schlafman, 2004, Ediouro.)

A maior parte de nós ainda não assimilou bem o quanto o mundo mudou com a disseminação desse novo vírus. Alguns provavelmente sequer conseguirão fazer isso ao longo de suas vidas. Ocorre um fenômeno social mais ou menos conhecido e previsível, muito parecido com o que teve lugar em Varsóvia antes da invasão nazista, onde uma parte significativa dos cidadãos tentou seguir sua vida do mesmo jeito apesar da sombra da realidade chegando.

A princípio, comparar a pandemia a uma guerra parece bem dramático e desproporcional, porém se você observar tão somente as mudanças de comportamento nesse momento (necessárias ou por medo), percebe que a comparação é precisa. Mudanças no modo de se relacionar com o outro e a suspensão do comportamento espontâneo são efeitos dos tempos de guerra.

A única coisa que nos impediria agora de enfrentar esse choque seria um milagre. O desaparecimento rápido e sem sequelas da ameaça seria uma solução milagrosa. Não vai acontecer, espero que você já tenha entendido e aceitado isso. Esse vírus veio para ficar e não sabemos por quanto tempo. Nós sabíamos que um dia ele viria. Quer dizer, alguns sabiam. Eu só não esperava que ele viesse enquanto eu estivesse vivo. Isso que falei não é profecia tardia, olha só o que está escrito no livro Comer animais, de Jonathan S. Foer, na edição brasileira do longínquo ano de 2011:

O mundo talvez esteja à beira de outra pandemia. Todos os países serão afetados. O alcance da doença será amplo. Os recursos médicos serão inadequados. Um grande número de mortes ocorrerá. A convulsão econômica e social será grande.

Enfim, avisados fomos.

Só comece a ler daqui a 24 horas

Eu, pelo meu lado, aqui na minha realidade, estou buscando uma forma de manter meu sebo funcionando enquanto for humanamente viável e seguro. Como um amigo disse, o último soco de um velho pugilista cansado, em que ele põe toda a força que lhe resta.

O sebo é um tipo de comércio bastante peculiar porque tem um público também bastante peculiar. A clientela em sua maioria é formada por pessoas que se abandonam a observar e garimpar entre estantes e prateleiras, geralmente não se importando muito com poeira, desgastes ou mesmo sujeira. Apesar de me auto enganar com o nome "livraria e sebo", sei que são negócios muito diferentes, quase antagônicos. Numa livraria você tem 5000 itens que são 1000 títulos, num sebo você pode ter 5000 itens que podem ser 5000 títulos. Embora o público dos dois se interseccione, são grupos distintos. Além disso, livrarias funcionam seguindo a marcha do mercado, da moda, da tendência, enquanto os sebos ficam a margem, meio foras da lei, meio independentes. São como as catacumbas de uma catedral milenar, quase inacessíveis e imutáveis, alheias ao passar do tempo.

Desde que surgiu, com a própria invenção do livro e juntamente com este que é seu produto principal, o comércio de obras usadas enfrentou muitas coisas, mas no momento em que o livro pulou para o mundo digital, seus caminhos começaram a se separar. Não há dúvida de que é um tipo de comércio que finalmente irá desaparecer por ter se descolado do destino do livro como produto. O registro digital de estoque e venda online também subtraiu bastante daquele velho charme. Talvez os sebos se transformem num tipo específico de antiquário. Não sei dizer quando, mas é para breve. Talvez essa pandemia seja um acontecimento que acelere a chegada a esse destino.

Porque, veja, por mais que a fabricação do livro em papel ainda esteja se mantendo e o livro digital não tenha se difundido totalmente, sabemos que o bit é para o livro um caminho sem volta tanto quanto foi para o vídeo e o som. Mesmo que a impressão de livros perdure e se mantenha para saciar o fetiche dos cheiradores de papel, eventualmente ele deixará de ser vendido em massa, como hoje está acontecendo com computadores desktops. E quando os últimos entusiastas do papel finalmente morrerem e não houver mais espaço para estantes nos apartamentos, o livro enfim estará a salvo da destruição, deliberada ou não, lá na nuvem, lá no céu. A salvo também de ser um contaminante do novo vírus, já que esse pode permanecer ativo na superfície do papel por até 24 horas.

Estou escapando da questão principal, que é a existência do meu sebo, então voltemos. Na minha livraria de usados com porta pra rua, assim como em outras, a liberdade do cliente percorrer as estantes demoradamente é muito importante. Poder procurar por algo que ainda não sabe que quer, é importante. Não vejo como isso pode continuar a ser possível. As pessoas poderão um dia novamente se espremer entre as estantes de um sebo e encontrar algo que não estava sendo procurado? Não sei, mas me parece que não.

Talvez você esteja pensando "Ué, mas é possível vender livros usados na Internet, não sei qual é o drama". Justo. Está aí a Estante Virtual, o maior marketplace de livros usados do Brasil. Mas não me diga que sebos podem ser digitais e online, não me diga isso, por favor. Mas sim, eventualmente é o que sobrará: um monte de simples livrarias de usados competindo para vender online as milhares de cópias carcomidas dos mesmos livros. Todas absolutamente iguais e insossas. Já é assim lá na Estante Virtual. Você compra a opção mais barata, pouco importa o nome do vendedor.

As pessoas mais interessantes são aquelas que não sabem o que querem

Estou fugindo do ponto de novo. Pensando bem, não há ponto, só estou escrevendo outro texto sem muita razão. A questão é que estamos fechados porque não somos um comércio essencial. Eu concordo totalmente e digo mais, se houver mudança no decreto e pudermos abrir seguindo a nova prática de permitir a entrada de um ou poucos clientes por vez, não abriremos desse modo. Não faz sentido. A coisa mais comum é alguém entrar, ficar uma ou duas horas, bater papo e ir embora sem comprar nada ou levar algo muito barato. É insustentável continuar assim e ao mesmo tempo impedir a entrada livre. O que podemos fazer? Cronometrar a permanência do cliente? "Você tem 10 minutos para encontrar alguma coisa para comprar e cair fora! Valendo!"

O que faremos é bem mais drástico e talvez torne nosso negócio finalmente inviável. Vamos nos transformar num estoque organizado para atender o cliente que já vem com algo específico em mente, como aquelas bibliotecas onde os leitores não têm acesso ao acervo e dependem do bibliotecário para localizar e emprestar o livro. "Ué, mas os sebos já não são todos assim?" Quase todos, mas os melhores sebos são aqueles em que o livreiro não sabe o que tem nas prateleiras e o cliente não consegue achar nada.