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O que está acontecendo?

15/01/2024

Uma língua

Hoje eu fiz a seguinte pergunta para o ChatGPT:

As línguas planejadas como o Esperanto perderão o propósito ou ficarão obsoletas a medida que a tecnologia de tradução simultânea se tornar mais poderosa com o uso da inteligência artificial generativa?

Ele deu uma resposta longa que se resume a "depende de quanto a tecnologia pode se tornar eficaz". Ou seja, é provável que sim. Insisti numa resposta "sim ou não" e ouvi um "talvez".

Você sabe o que é o Esperanto? Estava aqui engavetado há anos um texto que escrevi sobre essa língua. Mais um projeto que acabou por não vingar. Resolvi publicar no meu bloguinho porque me deixaria triste jogar fora um trabalho que demandou muitas horas.

Essa escalada de conflitos que está assolando nossa pequena bola de lama espacial me fez recordar algumas coisas otimistas que escrevi nesse texto. De repente tudo me pareceu tolo e impossível frente a esses tempos sombrios. Por outro lado, me pergunto o impacto positivo (espero) que a IA pode ter na comunicação entre os povos.

Enfim, espero que o texto abaixo seja interessante, talvez estimule alguém a aprender essa língua fascinante.

Introdução

A marca do escravo é falar a língua dos seus amos. -Tácito

Imagine que duas pessoas se encontram e começam a conversar. Imagine que ambas são de países diferentes e suas línguas maternas são distintas. A probabilidade de que uma delas fale num idioma economicamente mais relevante que o do outro é grande, mas vamos dizer que não é esse o caso, que eles são de países com presença internacional equivalente. Em qual língua estarão conversando? Um é fluente na língua do outro ou ambos falam uma terceira língua? Bem, seja qual for a situação, provavelmente alguma dessas coisas está acontecendo:

Seja qual for o assunto ou motivo da conversa, ela não será de igual para igual ou não terá o máximo de proveito possível para os dois. Quando um estrangeiro conversa comigo na minha língua, eu falo com uma naturalidade que ele nunca alcançará. Se meu idioma for, por exemplo, o francês, terei também todo o cabedal cultural ao meu lado. Pode ser que façamos um acordo comercial em que eu leve vantagem, já que sou expert nos nuances do meu idioma e isso me ajuda a argumentar melhor. Quando converso com um estrangeiro e usamos a língua inglesa, sendo ele italiano e eu brasileiro, nós dois nos esforçamos muito, pois não pensamos em inglês, que é uma língua muito estranha do nosso ponto de vista latino. Sim, nossos idiomas são primos e estamos tendo que nos entender numa língua bárbara!

Bom, mas tem conserto isso? Se não somos compatriotas, em alguma língua temos que conversar e alguém sempre sairá prejudicado, não é? Parece inevitável que acabemos tendo que usar uma das línguas dominantes.

E se eu te dissesse que existe uma saída mais justa? Se eu te contasse que existe uma língua que não tem lado, que é o open source das línguas e que não cobra pedágio cultural ou econômico?

Você gostou da ideia? Parece boa demais pra ser verdade? De certa forma é, mas não deixa de ser real. A solução para o problema cultural e econômico da barreira linguística existe desde o final do século XIX e foi dada de presente ao mundo por um simpático oftalmologista russo chamado Ludwik Lejzer Zamenhof.

Zamenhof hackeou a comunicação humana ao esmiuçar e desconstruir os principais idiomas falados ao redor do globo, pegar um punhado de tijolos de cada um deles, os melhores tijolos, e construir uma língua inteiramente nova.

Sem dúvida ele era um idealista e até mesmo um ingênuo, pois acreditava que se todos falassem numa língua livre a humanidade teria menos conflitos. Quem sabe até pudesse construir uma paz duradoura. Talvez seja injusto querer que uma língua por si só resolva nossos problemas de convívio, entretanto é uma parte importante para se alcançar algo tão desejado. E o nome que essa nova língua ganhou merecidamente não poderia ser mais sugestivo: esperanto, que quer dizer "aquele que tem esperança".

Zamenhof, que não era linguista mas sim um poliglota obstinado, não foi o primeiro e nem o último a planejar uma língua com intenções nobres ou mesmo por diversão, entretanto foi o mais bem sucedido até agora. Embora não seja uma unanimidade, o esperanto é sem dúvida um caso de sucesso.

É uma língua tão coesa que a gramática cabe em poucas páginas, e é tão fácil de aprender que pode ser falada em poucos meses de estudo. Apesar disso, não é menos flexível e capaz do que outras: já levou um poeta a concorrer ao Nobel de Literatura. Para melhorar ainda mais, seu criador abriu mão de qualquer controle ou direito sobre ela. Tudo isso junto iniciou um movimento histórico que duas guerras mundiais não conseguiram parar.

Ni parolu esperanton...

O que é o esperanto

Tenhamos consciência nítida de toda a importância deste dia, porque hoje, dentro dos hospitaleiros muros de Boulogne-sur-Mer, se reúnem não franceses com ingleses, não russos com poloneses, mas sim pessoas com pessoas. -Zamenhof

O esperanto é uma língua planejada, isto é, uma língua deliberadamente criada de modo estruturado e organizado, diferentemente de línguas que surgiram como elemento cultural de uma determinada região ou povo. Seu objetivo é ser uma língua auxiliar, internacional e neutra. Foi idealizada por Ludwik Lejzer Zamenhof e apresentada pela primeira vez em 1887.

Dentre todas as línguas planejadas, desenvolvidas por uma única pessoa ou grupo (como a Interlingua, o Novial e até mesmo o Klingon), o esperanto é de longe a mais difundida e adotada no mundo. Num universo de dez milhões de estudantes e falantes, existem aproximadamente dois mil nativos e dois milhões de falantes fluentes.[1]

Resumo histórico

Capa do Unua Libro em russo
Capa do Unua Libro em russo

O Esperanto foi idealizado por Ludwik Lejzer Zamenhof (1859-1917), um oftalmologista judeu nascido na cidade de Bialystok, no antigo império russo, atualmente pertencente a Polônia.

Zamenhof começou a desenvolver sua nova língua ainda na adolescência, ao perceber o atrito entre as várias etnias que conviviam na sua cidade natal. A intenção era criar uma língua que não pertencesse a ninguém, mas que pudesse ser de todos, e servisse de ponte na comunicação entre pessoas de origens dispares. Os primeiros rascunhos foram compartilhados apenas com seus amigos próximos e o trabalho só seria finalizado anos mais tarde. Convencido pelo pai, abandonou seu projeto e foi estudar medicina em Moscou. Numa das visitas ao lar descobriu que seu pai havia queimado todos os seus rascunhos. O que pareceu ser uma tragédia se tornou um importante recomeço.

Em 1887, já casado e com a ajuda financeira de sua esposa Klara, o jovem médico publicou em russo o livro Dr. Esperanto's International Language (Língua Internacional do Médico Esperançoso) posteriormente conhecido como Unua Libro (Primeiro livro), apresentando as regras fundamentais e um léxico básico. Em 1888 publicou o Dua Libro de l' Lingvo Internacia (Segundo livro da Língua Internacional), conhecido como Dua libro (segundo livro), esse escrito inteiramente em esperanto, para oferecer materiais de estudo e leitura aos que manifestaram interesse por aprender a nova língua. No final do mesmo ano, após ouvir muitas sugestões e fazer pequenas modificações nas regras, publicou o Aldono al la Dua Libro (Suplemento do segundo livro), conhecido hoje simplesmente como Aldono.

Temendo sofrer eventuais retaliações do governo russo e para não espantar os clientes do seu consultório, Zamenhof usou o pseudônimo Doktoro Esperanto (Médico Esperançoso). Sua esperança, ainda viva mais de cem anos depois, era que uma língua neutra pudesse diminuir mal-entendidos, reduzir conflitos étnicos e aproximar pessoas diferentes.

Ludwik Lejzer Zamenhof em seu consultório
Ludwik Lejzer Zamenhof em seu consultório

Em 1895, oito anos depois, já existiam mais de 300 grupos de estudo espalhados pelo mundo e quase 700 pessoas de 20 países participavam do primeiro Congresso Universal de Esperanto em Boulogne-sur-Mer, na França. Naquele mesmo ano era publicado o Fundamento de Esperanto (Fundação do Esperanto), um apanhado revisado dos escritos anteriores, já com a gramática definitiva. Naquele congresso foi firmado o Deklaracio pri la esenco de Esperantismo (Declaração da Essência do Esperantismo, ou como ficou conhecida, Declaração de Boulogne).

A Declaração

Como muitas pessoas têm uma noção errada sobre a essência do movimento esperantista, nós, abaixo assinados, representantes do movimento em muitos países, reunidos no Congresso Internacional Esperantista em Boulogne-sur-Mer, sentimos a necessidade de divulgar os seguintes esclarecimentos em comum acordo com o autor da língua Esperanto:

  1. O esperantismo é o esforço de difundir o uso dessa linguagem humana e neutra em todo o mundo, a qual "sem interferir na vida dos povos e nunca substituindo línguas nacionais existentes", pode dar às pessoas de diferentes nações a capacidade de se entenderem, além de servir como uma linguagem conciliatória de instituições públicas onde diferentes povos divergem por questões linguísticas, possibilitando publicações de igual interesse mútuo. Quaisquer outros ideais ou desejos vinculados ao esperantismo por qualquer esperantista são puramente particulares, não de responsabilidade do esperantismo.

  2. Considerando que, na atualidade, não há pesquisador em todo o mundo que duvide de que uma Língua Internacional só pode ser artificial [planejada], e considerando que, dentre todos os numerosos esforços feitos nos últimos séculos, todos os pesquisadores apresentaram apenas projetos teóricos, e somente uma língua parece efetivamente completa, minuciosamente testada e perfeitamente viável e adequada em todas as relações, o Esperanto: por esse motivo, os adeptos da ideia de uma Língua Internacional, reconhecendo que a controvérsia teórica não leva a lugar nenhum e que o objetivo [de uma língua internacional] só pode ser alcançado por meio de trabalho prático, há muito tempo se uniram em torno da língua Esperanto e trabalham continuamente para a sua disseminação e para enriquecer sua literatura.

  3. Considerando que o autor da língua Esperanto, desde o início, renunciou de uma vez por todas aos direitos pessoais e privilégios relacionados a essa língua, por esse motivo o Esperanto não é "propriedade de ninguém", nem em questões materiais nem em questões morais.

    O verdadeiro mestre desta língua é o mundo inteiro, e qualquer pessoa que deseje pode publicar em ou sobre esta língua qualquer obra que desejar e pode usar a língua para qualquer finalidade possível. Os mestres espirituais da língua serão aquelas pessoas que, no mundo, forem reconhecidas como os escritores mais talentosos nesta língua.

  4. O Esperanto não possui autoridade legislativa e não depende de nenhuma pessoa em particular. Todas as opiniões e obras do criador do Esperanto, assim como as opiniões e obras de todo esperantista, têm uma natureza absolutamente privada e não obrigatória para os outros de forma alguma. A única base única e perpetuamente obrigatória da língua Esperanto para todos os esperantistas é a obra "Fundamento de Esperanto", à qual ninguém tem o direito de fazer alterações. Se alguém se desvia das regras e modelos mencionados acima, não pode nunca se desculpar com as palavras: "assim deseja ou aconselha o autor do Esperanto". Toda ideia que não pode ser convenientemente expressa pelo conteúdo do Fundamento de Esperanto, todos os esperantistas podem expressar da maneira que considerarem mais correta, como é feito em qualquer outra língua. Mas por razões de unidade, todos os esperantistas são recomendados a imitar, tanto quanto possível, o estilo encontrado nas obras do criador do Esperanto, que trabalhou mais que qualquer outro para e em Esperanto e que conhece seu espírito melhor que qualquer outro.

  5. Um esperantista é uma pessoa que conhece e utiliza a língua Esperanto com completa exatidão, para qualquer finalidade que ele a utilize. A filiação a um círculo social ou organização ativa de esperantistas é recomendada para todos os esperantistas, mas não é obrigatória.

Evolução, perseguição, obstáculos e críticas

Fluente em vários idiomas e conhecedor de muitos outros, Zamenhof foi capaz de construir sua língua com sucesso, aproveitando o que diversos idiomas ofereciam de melhor. O que a primeira vista pareceu ser o trabalho de mais um linguista amador excêntrico, fadado a desaparecer com seu inventor, passou pela prova do tempo e mostrou-se uma ferramenta extremamente poderosa, dada sua consistência, precisão e simplicidade.

A princípio o esperanto era tão somente chamado de Lingvo Internacia (Língua Internacional) ou Lingvo Internacia de Doktoro Esperanto (Língua Internacional do Médico Esperançoso), mas com o passar do tempo o nome foi encurtando até chegar ao atual, simplesmente Esperanto. Zamenhof foi nomeado 14 vezes para o Nobel da Paz, mas nunca obteve o prêmio. Morreu em Varsóvia, de complicações cardíacas, no dia 14 de abril de 1917.

A língua foi recebida com entusiasmo e rapidamente ganhou adeptos na virada dos séculos XIX e XX, porém a onda antissemita que vinha crescendo e dominou a Europa e as duas guerras mundiais frearam sua disseminação. Naquela primeira metade do século, os falantes e estudantes da língua foram perseguidos, presos e até mesmo mortos pelos regimes ditatoriais europeus, notadamente pelo regime nazista. Na China e no Japão o esperanto também foi alvo de ataque. Os três filhos de Zamenhof foram assassinados pelos nazistas durante a 2 Guerra.

Após esse período tenebroso o esperanto retomou praticamente do zero um ritmo constante de adoção e vem sendo gradualmente abraçado pela sociedade. Embora o número de falantes seja considerado pequeno, há de se notar que é maior do que o de muitos idiomas de membros da união europeia, como irlandês, maltês, letão e estoniano.

O principal obstáculo enfrentado pelo esperanto reside no que é a sua força: ser uma língua sem dono. Ainda há grande resistência e preconceito, notadamente por falantes de idiomas dominantes. Como todo idioma pode ser também um instrumento de supremacia política, econômica e cultural, ceder espaço a uma língua que não pode ser controlada nacionalmente é um passo delicado para as grandes potências mundiais. O esperanto torna possível o diálogo direto entre gente comum, separada não só por grandes distâncias físicas como também por grandes distâncias sociais e culturais, e isso pode ser tomado como algo perigoso. Acrescenta-se aí a ausência ou pouca presença de influenciadores com poder político que possam interceder pela sua adoção. Mesmo sendo claramente sinalizada como uma segunda língua que vem apenas para auxiliar na comunicação, o esperanto é muitas vezes encarado com ressalvas e visto como uma ameaça a soberania nacional.

Para minar um pouco mais as supostas pretensões dos entusiastas, alguns linguistas e cultos agem de modo elitista e apontam a língua como uma concorrente sem pedigree. Acusam-na de ser uma língua artificial, portanto desprovida de valor cultural. A ideia arcaica de que idiomas são organismos vivos e naturais, nos moldes da seleção natural de Darwin, surgindo e se desenvolvendo espontaneamente, ainda persiste, apesar de ter sido descartada nos círculos científicos.

O esperanto é acusado de não ter tradição e patrimônio cultural, já que não tem lastro étnico. Esquece-se que a finalidade de uma língua internacional neutra não é a de tomar espaço das demais, mas justamente servir de ponte entre elas, intermediando o contato entre culturas distintas. Mesmo a acusação de não ser uma língua viva não é válida, já que desde seus primórdios o esperanto vem desenvolvendo uma identidade própria através de literatura original. Também contribui com um valioso acervo de traduções que está impedindo que diversas culturas minoritárias desapareçam. É notório que os falantes de esperanto de todo o mundo têm acesso a culturas praticamente desconhecidas fora de sua pequena comunidade.

Símbolos

O esperanto não tem pátria, mas tem seus símbolos, cores e até bandeira própria. A estrela verde foi proposta em 1892, com a cor representando esperança e as cinco pontas representando os cinco continentes.

Estrela verde de cinco pontas

A bandeira foi criada para uso próprio pelo Clube de Esperanto de Boulogne-sur-Mer, mas se tornou consenso e foi adotada no mundo todo no primeiro congresso de 1905, realizado naquela cidade francesa. O branco sinaliza o caráter neutro da língua e o desejo de paz.

Bandeira verde com quadrado branco no canto superior esquerdo contendo a estrela verde de cinco pontas

Também há o símbolo do jubileu, criado em 1987 pelo professor brasileiro Hilmar Ilton S. Ferreira, para as comemorações do centenário de surgimento da língua, também rapidamente adotado por toda a comunidade. Consiste no "E" latino de um lado e um "Э" cirílico do outro, sendo interpretado como a união dos hemisférios leste e oeste.

símbolo do jubileu

O esperanto e a ONU

O valor do esperanto foi reconhecido formalmente pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 1954. No ano de 1985 ela passou a recomendar a difusão da língua entre os países membros da ONU. Em 2017, com o centenário da morte de Zamenhof, a data entrou na agenda de comemorações importantes da organização.

O monopólio do inglês e a necessidade de uma língua internacional

Antes da Primeira e Segunda Guerras a língua inglesa já vinha tomando para si o posto de principal ponte linguística de negociação entre as nações. Isso se fortaleceu mais ainda depois do papel dos Estados Unidos na resolução do segundo conflito mundial. De fato, muitos alegam que o inglês já se firmou como idioma internacional, porém há somente 5,5% de falantes fluentes no mundo e seu aprendizado é difícil e pouco produtivo, já que é uma língua bastante estranha para boa parte daqueles cuja língua materna não pertença ao grupo de idiomas originários das regiões anglo-saxãs. O inglês possui uma infinidade de expressões idiomáticas e uma gramática repleta de exceções, como quase sempre acontece em idiomas originários de uma pequena região. Uma língua que possui 12 inclinações diferentes para a letra a sem dúvida exige alto investimento para ser dominada, o que raramente acontece, sendo comum que estrangeiros invariavelmente falem num inglês precário. Mais uma vez é bom lembrar que quem se expressa melhor e tem o domínio cultural ao seu lado, fatalmente levará vantagem.

A ONU iniciou seu funcionamento com quatro línguas de trabalho, isto é, línguas oficiais que são usadas na documentação e nas reuniões dos seus vários órgãos: francês, inglês, russo e chinês mandarim. Posteriormente mais duas foram acrescidas devido ao seu peso econômico e social: árabe e espanhol. A pressão exercida pelos países membros para que se adote outros idiomas é bastante grande, e isso causaria maior volume de trabalho e complexidade das atividades da organização, que já dedica um montante considerável de seus recursos com tradução e interpretação. Outros organismos internacionais passam por problemas semelhantes, como é o caso, por exemplo, da União Europeia, que iniciou sua história com seis países e atualmente é formada por quase trinta.

Mais do que nunca fica claro que a língua é uma poderosa ferramenta de conquista e domínio. Sendo uma forte aliada nas negociações, quem a domina está em vantagem. Aparentemente algumas nações entram em campo já com o domínio da bola.

Defensores do esperanto acreditam que sua adoção como língua-ponte para essas organizações supranacionais é uma possibilidade cada vez maior. É mais que óbvio que uma língua que não privilegia ninguém facilitaria e tornaria a comunicação entre os povos mais justa e ágil, além de economizar recursos preciosos. E é óbvio também que o que impede que isso aconteça o mais rápido possível é a forte influência dos países de língua dominante, além da insegurança dos que temem que sua língua materna seja diminuída e perca seu prestígio.

Não há dúvida de que países como o Brasil seriam muito beneficiados com a oficialização do esperanto na ONU. Em nosso país a comunidade de falantes é tradicional e uma das maiores do planeta.

O esperanto e a fé

Desde seu surgimento, diversas religiões e vertentes religiosas passaram a adotar o esperanto e estimular seu aprendizado junto aos seus adeptos. Existe até mesmo uma religião de origem japonesa chamada Oomoto-kyo que adotou o esperanto como língua sagrada e considera Zamenhof como um santo.

No Brasil, a Federação Espírita Brasileira, através de sua editora, é uma das maiores divulgadoras da língua. Da mesma forma, diversas congregações cristãs abraçaram seu uso. No Vaticano, o esperanto entrou para a lista de línguas em que o Papa transmite sua benção de Páscoa e Natal, e existe um movimento para que a língua substitua o latim como idioma oficial da Igreja Católica. Em 1979 o então líder espiritual e político do Irã, Ayatollah Khomeini, exortou os islâmicos a aprenderem esperanto, embora depois tenha voltado atrás ao saber que os seguidores da fé Bahá'i também se interessaram pela língua. É possível encontrar periódicos e obras religiosas, como a bíblia cristã e o Corão, sendo publicadas em esperanto em todas as partes do mundo.

O esperanto como língua viva

Da mesma forma que outras línguas, o esperanto tem organismos institucionais que a promovem, conservam e regulam sua evolução. A Academia de Esperanto tem a tarefa de proteger os princípios fundamentais e regular oficialmente o acréscimo de raízes ao dicionário. Nasceu no primeiro congresso, que é realizado anualmente desde então e já foi sediado por aproximadamente 60 países, com uma média de 2000 participantes.

Eventos nacionais e regionais regulares também demonstram a vitalidade da língua e é grande a quantidade de pessoas se comunicando, escrevendo e falando em esperanto em blogs, videoblogs e podcasts na Internet. 130 anos depois de seu nascimento, a língua está ativa e tem uma cultura plural e muito rica, com valores e identidade própria, tendo comprovado na prática que é capaz de expressar todas as nuances do pensamento humano. William Auld (1924-2006), um dos poetas expoentes do esperanto, foi três vezes indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.

Há milhares de livros, revistas, filmes e músicas que fornecem informação, conhecimento e diversão para os falantes da língua. O preconceito de que o esperanto não deve ser levado a sério e o mito inusitado de que é uma língua morta podem ser derrubados facilmente ao se constatar que a Wikipédia em esperanto possui já quase 300 mil verbetes e que 1,67 milhões de pessoas ao menos iniciaram o curso de esperanto no Duolingo.

O esperanto como primeira segunda língua

As boas razões para se aprender uma outra língua são as mesmas, porém o esperanto tem algumas vantagens que se destacam:

Propriedades da língua - estrutura e as 16 regras

A minha gramática inteira pode ser aprendida perfeitamente em uma hora. -Zamenhof

Mesmo sem nunca ter estudado nada sobre esperanto talvez você consiga identificar uma ou mais palavras que soam familiares na frase abaixo:

Mi estas feliĉa, ĉar mi ne laboros morgaŭ.

Os elementos morfológicos presentes na frase:

pronome verbo adjetivo conjunção pronome advérbio verbo advérbio
Mi estas feliĉa, ĉar mi ne laboros morgaŭ.
Eu estou feliz porque eu não trabalharei amanhã.

Estrutura

Assim como outras línguas modernas e não ágrafas, isto é, que possuem sinais gráficos, o esperanto é composto por fonemas, morfemas e lexemas que são representados através de grafemas. A grande diferença em relação às outras está na elegante estrutura lógica e regular em que seus elementos foram organizados no intuito de facilitar o aprendizado e o uso, tanto falado quanto escrito. De fato, o esperanto é provavelmente a segunda língua mais fácil de se dominar. Possui uma curva de aprendizagem bastante eficiente e é comum que em três meses o estudante esteja apto a comunicação básica, exigindo apenas prática e domínio de vocabulário.

O alfabeto do esperanto é similar ao da língua portuguesa, assim como boa parte dos radicais das palavras, que têm semelhanças na origem latina do nosso idioma. O núcleo das palavras provem principalmente de línguas europeias, com aproximadamente 75% de românico, 20% germânico e o restante grego, eslavo e outros. A sintaxe e o estilo comum são em boa parte influenciados pelo idioma eslavo e a combinação de palavras tem funcionamento semelhante ao do chinês, do turco, do suaíli e de outras línguas não indo-europeias, de modo que os falantes dessas línguas encontram no esperanto uma facilidade que não há na maior parte das línguas ocidentais. Os estrangeiros que ouvem o esperanto pela primeira vez geralmente o confundem com italiano, alguma língua do leste europeu ou até mesmo português. De fato, não estão totalmente errados em pensar assim.

O esperanto é inflexível na pronúncia, portanto é bem resistente a sotaques, visto que as consoantes têm sempre o mesmo fonema, sendo que o som de cada letra a identifica facilmente. Isso faz com que uma palavra ouvida pela primeira vez possa ser escrita imediatamente. Há algumas consoantes que a primeira vista parecem estranhas a nós que falamos português (ĉ, ĝ, ĥ, ĵ e ŝ), porém os respectivos sons são bem familiares.

As vogais são as mesmas que as nossas, no entanto nunca levam acentos, já que toda palavra em esperanto é paroxítona, isto é, a tônica é sempre no que seria a penúltima sílaba. Também nunca são pronunciadas de forma nasal e, exceto o a, totalmente abertas. Há duas semivogais (ou semiconsoantes como definem alguns), j e ŭ, sendo que a primeira tem o som do i português e a última tem o som de um u breve.

As regras gramaticais são altamente regulares e delimitadas. As classes gramaticais são óbvias: substantivos, adjetivos e advérbios seguem uma regra de terminação rígida que torna fácil identificá-los mesmo quando a palavra não é conhecida. O mesmo ocorre com os verbos, seus tempos verbais e outras classes e funções gramaticais. Por exemplo: o sufixo -o indica um substantivo, -a um adjetivo, -e um advérbio, -i um verbo no infinitivo, -as um verbo no tempo presente do indicativo.

Em termos de sintaxe (ordem dos vocábulos e seu sentido nas frases e orações) o esperanto propicia extrema liberdade, já que o objeto direto é claramente sinalizado. Como é uma língua aglutinativa e a composição de palavras usa elementos mórficos bem definidos, o vocabulário é flexível e transparente, com palavras que podem ser metamorfoseadas de maneira rápida e precisa, ou seja, existe a liberdade de combinar afixos e raízes/radicais que permite uma imensidão de significados. Essas combinações possibilitam que os falantes se comuniquem com um vocabulário básico muito menor do que o da maioria dos idiomas. É possível conversar efetivamente sabendo de 400 a 500 raízes/radicais, embora haja muitos vocábulos especializados para ciências, profissões e outras atividades.

Gramáticas completas de referência incluem a Plena Analiza Gramatiko de Esperanto (Gramática Analítica Completa do Esperanto) de Kálmán Kalocsay e Gaston Waringhien e a Plena Manlibro de Esperanta Gramatiko (Manual Completo da Gramática do Esperanto) de Bertilo Wennergren.

Gramática fundamental

A língua foi apresentada por Zamenhof através de 16 regras sucintas, exemplos, exercícios e um dicionário. Hoje existem explicações profundas e didáticas, porém essas regras continuam sendo a base do esperanto. A versão canônica, considerada definitiva e imutável no congresso de 1905, é a apresentada em cinco línguas (francês, inglês, alemão, russo e polonês) no livro Fundamento de Esperanto.

É importante notar que nos cinco idiomas originais as raízes, afixos e desinências que compõem as palavras de exemplo estão separadas por sinais para facilitar a identificação das partes. Na escrita regular esses sinais não entram. Nas versões em francês, inglês e alemão Zamenhof usou apóstrofos, enquanto na russa foram usadas barras e, na polonesa, barras inclinadas. Numa versão brasileira, usar pontos seria menos passível de causar confusão e é a convenção encontrada na divisão de palavras em dicionários de língua portuguesa.



Fontes

Os livros originais estão disponíveis online no site da Academia de Esperanto e há um fac-símile digital feito pelo Google que pode ser acessado no archive.org: http://www.akademio-de-esperanto.org/fundamento/gramatiko_angla.html e https://archive.org/details/fundamentodeesp00zamegoog

Esperanto em 12 lições, o curso básico mais rápido: https://esperanto12.net/pt/